Hoje aconteceu, arrepio novo
Vulgar sensação, o peito arde
A espinha denuncia-me todo
Furor que surge ao fim da tarde
A rosa feroz, a revelação
A surpresa de me rever assim
Espinhos não chamam tanta atenção
Quanto a figura daquele jardim
Porém, nada que eu digo
Faria mais sentido
Que aquela bela rosa
Que eu sinto que me apossa
Amar de verso e prosa
Todo e cada arrepio
Voa, fala.
Mas não diz.
Não tem asas
E voa.
Eu não sei se é.
Se for,
Já foi.
Encontrado amarrotado em meio aos restos de anos e anos atrás.
Penso que todo amor seja pouco
Ou nada, quando perto de você.
Meu olhos, fechados, ainda a te ver
Os abro e tu foges, deixa-me louco.
Penso que todo amor seja muito
Mais que tudo, que já vivi.
Ama que implora por mais de ti,
Grito profundo que só eu escuto.
Pois de que adianta pensar
Se existimos para viver
Nessa linha indefinida?
Vide à nossa linha andar
Não me deixes sem te ver
Amor de toda minha vida.
E ali eu vi
Aquela mulher
Dissecando meu poeta favorito
Quem ela pensa que é?
Qual sorte de mestre
É alguém que levante aos céus
Os restos imortais do poeta?
Como vã oferenda, vazia
O sentido
Em achar sentido
Qual?
Julgando a obra
Sem o poeta ter direito qualquer
A se defender daquela mulher
Que o dissecava
Que senhora macabra!
Ali quem garante
Que em determinado instante
Estaria sua parcialidade
Tomando conta de si?
E suas palavras?
“Mas todos analistas”,
Dizem os conformados,
“Diriam que assim
É assado
Assim”
Ah, não!
Nem todos os homens
Torturando o poeta
Tirariam dele
A dor que ele sente
A se compreender em vida.
Que dirá o poeta
Morto.
E some
O tempo em minha mão
As mãos entrelaçadas
No tempo
E ligadas como estão
As duas mãos atadas
Pois elas
Hão de perder noção
Das peles e das marcas
E sentir
Que falta certo grão
Que sobram tantas farpas
Na vida
Que resta só, solidão
Com suas mãos amarradas
Qual fuga
Escapa de teu pulmão
E vibra em tuas cordas,
Solidão?
Canta tua própria versão
De vidas tão separadas
E a mão
Que te segura, Solidão
O que tu imaginavas?
Será que
Quem te segura a mão
É quem te empurravas?
Que grito
Foge dessa tua canção
De almas desesperadas?
Lembra
Que a corda e sua mão
Andam sempre amarradas
Em quê?
Ah, não ligue, Solidão-
Elas nunca foram atadas.
Toda vez que o dia nasce
Eu sinto falta de você
O sol me chama, eu vou pra cama
Eu entro em coma por sofrer
O som de tudo, a minha sombra
Me lembra que já me assombra
O futuro inteiro sem te ter
Cada hora a mais que me vai
Eu sinto falta de você
A vida se vai, e o tempo me vem
Eu envelheço a me perder
Em meio à tanto, tão pouco faço
Preso em meio à ferro e aço
Vendo o que há em mim se desfazer
Se eu me olho no espelho
Eu sinto falta de você
Meus olhos não mentem, não me salvam
E o pranto os lábios me salgam
Pensei que ao chorar eu poderia
Ver livre de mim um dia
Seus olhos dentro dos meus a me ver
Ah, quando chega o pôr-do-sol
Eu sinto falta de você
As noites são sem estrelas pra mim
Um frio toma o meu ser
Sempre sonho em poder te reencontrar
Eu só queria te abraçar
Pra minha alma então se aquecer
Por menor que seja,
vedes sentido em amar?
És um idiota.
Por mais que vejas,
Não consegues acreditar?
És um idiota.
Todo dia que troveja,
Da chuva não sentes o ar?
És um idiota.
Tua dor que não caleja –
Não sentes ânsia de matar?
És um idiota.
Sê idiota
Tua ignorância
Tua redenção.